Uma nova forma de aprender segundo a Psicomotricidade

Uma nova forma de aprender segundo a Psicomotricidade

Dña. Caçilda Velasco. Professora, Pedagoga, Profissional de Educação Física e Psicomotricista. Diretora Técnica da Associação Vem Ser – SP – Brasil. Membro da Academia Brasileira De Profissionais Da Natação Infantil. 15 livros publicados. cacilda@cacildavelasco.com.br

Se pensamos que a Natação para nós humanos (em cujos seres ela não é uma habilidade genética como para os peixes, anfíbios e alguns animais mamíferos), passa por três fases: (1) Proporcionar segurança e adaptação em um novo meio, o líquido; (2) Promover o enriquecimento adaptativo as sensações que esse meio proporciona; (3) Realizar a integração sensorial, fazendo com que o corpo seja transformador e realizador de deslocamentos aquáticos coordenados e construtivos.

Respeitar cada fase do desenvolvimento nos faz acreditar que a Psicomotricidade promove na aprendizagem da Natação uma complexidade de envolvimentos corporais e sensoriais importante (Velasco, 1994). Nem tudo o que realizamos no ar (em terra) podemos realizar na água, mas quase tudo que fazemos nela e com ela é possível fora dela. A água é um elemento facilitador da aprendizagem e viver, é um constante aprender; novas experiências, novas situações, novas reações, etc.

O que seria fundamental é que os profissionais ligados a essa área fossem bastante conscientes na utilização de recursos e métodos. Em muitas ocasiões pecamos, ao ensinar determinados comportamentos natatórios, “machucando” a psicomotricidade do aluno. Às vezes nos caminhos que percorremos não nos atemos aos detalhes e …

” na vida, no amor e na natação o que importa são os detalhes”.

 A aprendizagem nas diferentes faixas etárias

Para a Psicomotricidade não basta termos conhecimentos, mas sim, e principalmente, sabermos como aplicá-los.

Entender e ser fiel à aplicação dos conceitos para cada faixa etária necessita de um bom aprofundamento nas etapas do desenvolvimento humano. Segundo Palangana (2015) e muitos outros estudiosas do desenvolvimento humano é preciso conhecer profundamente o que podemos esperar (cobrar) ou não de cada um em cada faixa etária.

Os bebês, por exemplo, não têm autonomia física, nem mental, em relação à sua motricidade. Seu alicerce motor é a visão, a audição e o tato. Toda estimulação natural, portanto, para todas as movimentações possíveis, promovem seu bom desenvolvimento.

Nas aulas com essa faixa etária recomendamos a presença dos pais, que serão o elemento transacional entre o bebê e o professor.

Já os pequenos nos três primeiros anos de vida se encontram na fase do desenvolvimento global, da independência física corporal. Nesta fase a criança explora o mundo que a cerca, usando o seu próprio corpo. Desta sorte, a aprendizagem nesta faixa etária ocorrerá somente em função do interesse e atenção da criança. A água é o maior brinquedo do Planeta e mobiliza corporalmente a criança a movimentos exploratórios ricos de aprendizagens.

Dos quatro aos seis anos, entramos para a fase dos questionamentos, da expressão verbal, para a definição da personalidade. Este é o momento exato do “ensaio corporal” que leva a uma experiência constante e sempre nova na piscina. Cabe ao professor de natação respeitar e valorizar a criança nesta idade pelo o que ela quer, pode e sabe realizar.

Entre os sete e nove anos, surge o pensamento lógico e formal, a exploração das descobertas e entendimento da simbologia. A criança já não brinca mais o tempo todo e realiza tarefas com precisão que a idade lhe permite. As aquisições motoras se efetuam num ritmo mais rápido e consegue propulsões variadas, diferentes posturas corporais e a movimentação de braços e pernas inicia a coordenação técnica de cada nado.

Dos dez aos doze anos, a criança já apresenta a exatidão das coisas, entende o porquê delas, as regras do jogo e manifesta atitudes de comportamentos sociais adequados. Nesta fase a aprendizagem técnica dos nados Crawl, Costas, Peito e Borboleta se concretiza com perfeição.

Dos treze a dezessete anos o adolescente emerge socialmente, como um “ser” grupal, geralmente contesta o lar e faz prevalecer as ideias do grupo em que convive. É a chamada “primavera psicomotora”, quando estão aflorando os seus potenciais físico e psíquico. O jovem, a partir desta idade, possui planificação motriz, maturidade sócio-motora, melodia cinética e desenvolvimento práxico. Já consegue lidar com o abstrato. Daí na piscina é possível atingirmos o aperfeiçoamento necessário na criação de seu estilo próprio de nadar.

Durante os 18 aos 40 anos, o individuo reflete o seu “eu” na sociedade, verifica-se nesta fase um investimento pessoal para a produtividade e a conquista material para si mesmo. A partir deste momento, existe no ser humano uma influência de fatores externos (tensão, stress, etc.) que interferem em seu rendimento e produtividade. Aí deve-se permitir o despertar das sensações, sem reprimí-las, a escutar seus sentimentos, para que se promova efetivamente a “ação”. O nadar deve trazer prazer e auto realização, através de propostas estimuladoras a esses alunos

Já dos 41 aos 60 anos, encontramos a necessidade da aceitação corporal em suas múltiplas alterações. Surge a tendência para um equilíbrio psicológico, carregado de experiências. Em contrapartida, é preciso fazer desaparecer os maus hábitos, rompendo os romantismos e fazendo renascer a criança que existe dentro de si. Gerar oportunidades lúdicas na piscina nessa faixa etária não é infantilizar o adulto, mas sim despertar descontração no envolvimento aquático necessário

A chamada “terceira idade”, ou velhice, não deve ser encarada como senilidade ou incapacidade (Fonseca, 1988). E claro que o organismo, nesta fase, sofre alterações que ativam alguns poucos setores, enquanto outros são desativados. O objetivo maior do trabalho com o idoso é a sua valorização pessoal, a reativação de sua autoestima, a confirmação das possibilidades pessoais, da capacidade de realização e da espontaneidade de movimentos. Estar no meio líquido nessa faixa etária é altamente benéfico a sua saúde física e mental, pois a imersão do corpo na água beneficia toda a fisiologia alterada que temos nessa idade.

Os indivíduos diferenciados são todos aqueles que possuem “limitações” físicas, motoras, funcionais, mentais e/ou emocionais. Com esta classe de pessoas positivamente ocorrem “abalos” psicomotores, mas nelas encontramos “resquícios”, que podem ser aproveitados. Na piscina e aprendizagem dos nados, muitas vezes precisamos realizar uma série de adaptações e utilizar de alguns acessórios fundamentais a determinadas patologias, mas tudo o que conseguirmos a nível de realizações com estas pessoas, por menos significativos que possam parecer, é lucro e merecem ser considerados.

Postura profissional

Não estaremos praticando a “educação”, respeitando o “ser” e proporcionando-lhes o “viver” se manipularmos o corpo de nosso aluno, fazendo-o executar movimentos que não sejam expressão livre dos seus impulsos cinéticos, subjetivos e enquadrarmos seu ritmo pessoal em padrões estereotipados. Da mesma forma, prejudicaremos o nosso trabalho se impedirmos estes alunos de terem consciência das suas próprias capacidades de alcançar sucesso e firmar sua autovalorização, no ambiente aquático tão prazeroso de estarmos.

A intervenção psicomotora oferece inúmeras possibilidades, surgindo como um pilar, uma base estrutural de outras atividades que se desenvolvem em meio aquático, sejam elas ao nível da adaptação ao meio aquático ou da preparação para a aprendizagem formal das técnicas de nado ou até outras atividades aquáticas (Matias, 2018)

Se nos opusermos às suas iniciativas criadoras, ao processo de criação pessoal de soluções e respostas aos problemas levantados; se fizermos com que a vivência lúdica seja cercada pela restrição à criatividade pelo tema aparentemente sem interesse, pela falta de oportunidade para experimentar e criar em liberdade; se da exercitação não emanar a alegria pelos próprios objetivos, certamente não alcançaremos, de igual modo, o sucesso pretendido em nosso trabalho aquático de aprendizagem dos nados.

Resumindo, deduzimos que o processo de aprendizagem é definitivamente influenciado pelo “prazer” da prática natatória e de se colocar esse corpo num gesto significativo tendo assim produzido a aprendizagem da Natação.

Fonseca, V. (1988). Da filogênese a ontogênese da motricidade. Rio de Janeiro: Editora Artes Médicas.

Matias, A. R. (2018). Psicomotricidade em meio aquático. RIAA. Revista de Investigación en Actividades Acuáticas, 2(4), 68-69. https://doi.org/10.21134/riaa.v2i4.1539

Palangana, I. C. (2015). Desenvolvimento e aprendizagem em Piaget e Vigotski. São Paolo: Sumus Editorial.

Velasco, C. G. (1994). Natação segundo a Psicomotricidade. Rio de Janeiro: Editora Sprint.

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